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A economia do movimento: quem são e como vivem os trabalhadores de plataforma no Brasil

1,7 milhão de pessoas movem o Brasil sobre rodas e pedais. São entregadores, motoristas, mototaxistas e bikers — com perfil, renda, riscos e demandas que os dados finalmente começam a revelar.

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ECONOMIA – TRABALHO E PLATAFORMAS

Nas ruas do Brasil, há 1,7 milhão de pessoas trabalhando por aplicativo. Sao entregadores de comida e mercado, motoristas de passageiros, mototaxistas e ciclistas de delivery. Eles movem cidades que não funcionariam sem eles — e ainda são tratados como uma questao a ser resolvida, não como uma realidade a ser respeitada.

Os dados do IBGE, do Ipea e de pesquisas setoriais publicados em 2025 e 2026 revelam, pela primeira vez com consistencia, quem são essas pessoas: sua idade, seu genero, sua raca, sua renda e os riscos que enfrentam. Este e o panorama completo.

O tamanho do ecossistema

A PNAD Continua de 2025 mostrou que o Brasil tinha 1,7 milhão de trabalhadores em plataformas digitais em 2024 — crescimento de 25% em relacao ao levantamento anterior. Desse total:

Motoristas de passageiros (Uber, 99, InDrive)53,1% dos plataformizados — cerca de 964 mil pessoas
Entregadores (iFood, Rappi, Daki e similares)29,3% — cerca de 385 a 500 mil pessoas
Mototaxistas14,4% — concentrados no Norte e Nordeste do pais
Outros servicos por plataforma17,8% — designers, tradutores, profissionais autonomos
Informalidade71,1% são informais — ante 44,3% da populacao brasileira geral (IBGE)

Quem e essa pessoa — o perfil real

O estudo do Cebrap encomendado pela Amobitec (associacao que reine iFood, 99, Uber e Ze Delivery) traçou o perfil dos entregadores: homem, preto ou pardo, classe C, por volta dos 33 anos, ensino medio completo e dono da propria moto. A maioria já tinha um trabalho antes de entrar nos aplicativos.

O IBGE confirma e amplia: 47,3% dos trabalhadores por aplicativo tem entre 25 e 39 anos. Outros 36,2% tem entre 40 e 59 anos. Quem acha que delivery e coisa de jovem de 20 anos esta errado — mais de um terco do ecossistema e formado por trabalhadores de meia-idade, muitos deles que saíram de empregos formais ou não encontraram recolocacao no mercado tradicional.

Nas ruas de São Paulo, essa realidade e vista a olho nu: o entregador de moto com 45 anos, o biker de 50 pedaling uma carga pesada, o motorista de Uber que deixou o emprego de cargos para ter mais flexibilidade. Os numeros confirmam a percepcao de quem trabalha no setor.

O recorte de genero

A participacao feminina no setor e baixa e cresce devagar. Segundo levantamento publicado em marco de 2026:

Mulheres no delivery (entregas)Cerca de 6% — subiu de 5,55% em 2024 para 5,85% em 2025
Mulheres em apps de mobilidade (passageiros)Cerca de 11% do total
Mulheres na populacao ocupada geral do Brasil41,2% — evidenciando a sub-representacao no setor

O pesquisador Gustavo Geaquinto Fontes (IBGE) explica: “A ocupacao de condutor de motocicleta e fortemente exercida por homens.” Os fatores que afastam as mulheres são multiplos — seguranca nas ruas, divisão de tarefas domesticas e a cultura ainda predominantemente masculina do setor.

O iFood tem um programa especifico para motogirls, incluindo cobertura de seguro com beneficios extras para maes e banheiros exclusivos nos pontos de apoio. Mas 6% de representacao e um numero que mostra o quanto o setor ainda tem a avan car.

Raca e classe

Os dados de multiplas pesquisas convergem: entre 68% e 70% dos entregadores se autodeclaram pretos ou pardos. Entre os bikers de delivery, o percentual e proximo. O setor e majoritariamente de trabalhadores negros, operando na informalidade, sem protecao previdenciaria solida e em condicoes de risco real.

A renda famíliar media dos entregadores varia entre 2 e 5 salarios minimos — o delivery e a principal ou unica fonte de renda para a maioria. Tres em cada dez entregadores de alimentos vivem em situacao de inseguranca alimentar, aponta a ONG Acao da Cidadania.

O que esses trabalhadores querem — e o que a pesquisa mostra

Pesquisa da plataforma GigU com a consultoria Jangada revelou que 52,2% dos motoristas e entregadores são contra a regulamentacao nos moldes propostos pelo PLP 152/2025. Mas isso não significa que não querem mudancas. Significa que desconfiam da forma como elas estao sendo desenhadas.

As demandas mais frequentes que aparecem em protestos, entrevistas e relatos de campo não são por direitos CLT. Sao por: valor digno por quilometro rodado; corridas mais curtas, especialmente para bikers; infraestrutura basica de banheiro, agua e descanso; fim do agendamento compulsorio que retira autonomia; e transparencia nos criterios de distribuicao de pedidos.

Em resumo: autonomia com dignidade. Nao carteira assinada — mas respeito e condicoes minimas para trabalhar.

A linha do tempo: 2025 e 2026

Marco/2025: paralisacao nacional de entregadores pedindo aumento da taxa minima e fim do modelo de operadores logisticos.

Junho/2025: iFood eleva taxa minima — moto/carro para R$ 7,50, bicicleta para R$ 7. Protestos continuam por considerar insuficiente.

Setembro/2025: entregadores em SP, Curitiba, Recife, Fortaleza e BH protestam contra o sistema +Entregas. Em Campinas, paralisacao dura tres dias.

Dezembro/2025: governo Lula forma GTT Interministerial. Rappi, iFood e Daki expandem pontos de apoio.

Abril/2026: PLP 152/2025 tem votacao cancelada apos protestos em 23 capitais.

Abril/2026: Prefeitura de SP inaugura Espaco Motoboy Paulista — primeiro ponto publico da cidade.

Maio/2026: regulamentacao sem data definida. Ecossistema segue em expansão, debate segue em aberto.

Fontes: IBGE/PNAD Continua 2025 · Cebrap/Amobitec · GigU/Jangada · Acao da Cidadania/O Globo · Ipea · DIEESE/PNAD · Agência Brasil (out/2025) · Carta Capital (mar/2026) · UAI Noticias (mai/2025) · Secom/Gov.br

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