O mapa do IBGE dividiu o Brasil: elogios, críticas e o que dizem cartógrafos e servidores

Pesquisadores aplaudem, servidores do próprio instituto questionam, cartógrafos debatem o mérito técnico. Este artigo apresenta os argumentos de cada lado — sem tomar partido.

Compartilhar:📱 WhatsApp
🔊 Ouvir esta notícia
Toque para ouvir
IBGE – DEBATE CARTOGRAFICO

O mapa do IBGE chegou as redes sociais e dividiu. De um lado, elogios de pesquisadores, ativistas e comunicadores que viram na iniciativa um ato de reposicionamento simbolico importante. Do outro, criticas de parte da academia, da imprensa e dos proprios servidores do instituto. Este artigo apresenta os dois lados — com as declarações registradas — sem editorialmente favoritar nenhum deles.

O que diz o IBGE e seus apoiadores

Marcio Pochmann, presidente do IBGE (declaracao no lancamento, maio/2026):

“O IBGE transforma a cartografia em afirmacao politica e civilizatoria, pois coloca o Brasil no centro, inverte o eixo Norte-Sul e revela os continentes em proporcoes reais.”

Gustavo Mota de Sousa, professor de cartografia da UFRRJ:

“Nao ha erro na representacao, já que mapas podem adotar diferentes perspectivas. E uma forma de valorizar o pais, tornando-o mais visivel.”

Selma Malika Haddadi, vice-presidente da Comissão da Uniao Africana (sobre a campanha Correct The Map, 2025):

“Pode parecer que e so um mapa, mas na realidade não e. Estereotipos como a falsa impressão de que a Africa e marginal influenciam os media, a educacao e as politicas.”

Fara Ndiaye, vice-diretora-executiva da Speak Up Africa (ao New York Times, 2025):

“E mais do que geografia, trata-se realmente de dignidade e orgulho.”

Tom Patterson, um dos criadores da Equal Earth (entrevista ao O Tempo, 2025):

“A projecao Mercator vem perdendo popularidade nas ultimas decadas. A comunidade cartografica e um pouco conservadora, mas a Equal Earth vem ganhando aprovacao de forma constante.”

O que dizem os que criticam

Nucleo da Assibge, sindicato dos servidores do IBGE (declaracao sobre o mapa de 2025):

O sindicato classificou a proposta como uma “encenacao simbolica”, sem respaldo nas convencoes cartograficas internacionais e potencialmente prejudicial a credibilidade do orgao. O argumento central: “o IBGE deve priorizar a producao de informacoes tecnicas e objetivas, não material simbolico ou politico.”

Gazeta do Povo (coluna de opiniao, maio/2026):

O veiculo descreveu o mapa como “bizarro” e questionou a gestao de Pochmann por transformar um orgao técnico em instrumento de “afirmacao politica”. A coluna argumentou que a inversão Norte-Sul e a centralizacao do Brasil são escolhas sem amparo nas convencoes cartograficas internacionais dominantes.

O argumento técnico — Mercator era imperialista?

Uma parte do debate envolve uma questao historica que merece tratamento cuidadoso: a projecao de Mercator foi criada com intencao colonial?

A resposta mais honesta que a historiografia fornece e: provavelmente não. Mercator era um cartografo flamenco do seculo XVI com um objetivo técnico especifico — resolver o problema da navegacao em longas distancias. Ele chegou a ser preso e julgado por heresia em seu tempo. Nao era um aliado do poder colonial no sentido em que o termo e compreendido hoje.

O que pode ser dito com mais precisão e que a adocao universal do Mercator como padrao de ensino no seculo XX produziu um efeito cultural de normalizar uma representacao em que as regiões mais ricas aparecem visualmente maiores. Se isso foi intencional ou um subproduto não planejádo e outra questao — e ela continua aberta.

O que não e disputado: a Equal Earth e tecnicamente melhor para ensinar area

Independente do debate politico, ha um ponto de convergencia entre especialistas: para fins educacionais de compreensão de tamanho relativo dos continentes, a Equal Earth e tecnicamente superior ao Mercator. Nao e questao de ideologia — e geometria. A Equal Earth preserva as proporcoes de area. O Mercator não.

O debate politico sobre centralizar o Brasil, inverter o norte-sul e usar o mapa como “afirmacao civilizatoria” e separado dessa questao tecnica — e e sobre esse ponto que o debate continua sem consenso.

O que o IBGE classificou como sucesso

O instituto classificou a repercussão dos mapas como um “grande exito”. O mapa de 2026 registrou esgotamento parcial de estoque nas primeiras horas de venda na lojá virtual. O lancamento reuniu mais de 20 representacoes diplomaticas no Itamaraty. Se o objetivo era acender o debate sobre cartografia e representacao do mundo — dentro e fora do Brasil — esse objetivo, ao menos, parece ter sido atingido.

Fontes: IBGE Agência de Noticias (4/mai/2026) · Gazeta do Povo (mai/2026) · Correio Braziliense (mai/2026) · Sindpd (mai/2025) · O Tempo (ago/2025) · Reuters via JN Portugal (set/2025) · NYT via Speak Up Africa (2025) · Curiosidades Cartograficas · Geocracia

Compartilhar:📱 WhatsApp

📎 Relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *