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Por que o mapa do mundo parece assim? A história da cartografia do Mercator ao debate decolonial

O mapa que você aprendeu na escola foi desenhado em 1569 para ajudar navegantes europeus. Hoje está no centro de um debate global sobre como representar o mundo — e o IBGE entrou na conversa.

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EDUCACAO – CARTOGRAFIA E GEOPOLITICA

Olhe para qualquer mapa-mundi padrao. A Groenlandia parece enorme — quase do tamanho da Africa. A Europa fica no centro. O Brasil aparece no canto inferior esquerdo, menor do que parece ser. E o norte esta sempre em cima.

Nenhuma dessas escolhas e neutra. Nenhuma e tecnicamente obrigatoria. Todas tem historia — e essa historia passa por navegadores do seculo XVI, pelo colonialismo europeu, pela geometria esferica e, mais recentemente, por uma serie de mapas lancados pelo IBGE que dividiu opinioes no Brasil.

Para entender o debate, e preciso comecar do comeco: por que mapas distorcem o mundo?

O problema impossivel da cartografia

Existe um problema matematico que nenhum cartografo jámais resolveu — e que nunca podera ser resolvido. A Terra e uma esfera. Um mapa e uma superficie plana. Nao e possivel achatar uma superficie esferica num plano sem causar alguma distorcao. Isso não e opiniao: e geometria.

A questao, entao, nunca foi qual projecao e a correta. A questao sempre foi: o que Você prefere distorcer? Forma, tamanho, distancia ou direcao — alguma coisa vai sofrer. Cada projecao cartografica e uma escolha sobre qual distorcao aceitar.

Projecao conformePreserva a forma dos continentes — distorce o tamanho. Exemplo classico: Mercator.
Projecao equivalente (equal-area)Preserva o tamanho real das areas — distorce a forma. Exemplos: Peters, Equal Earth.
Projecao equidistantePreserva distancias a partir de um ponto central — distorce forma e area em outras regiões.
Projecao azimutalPreserva direcoes a partir de um ponto — distorce forma e area nas bordas.

Gerardus Mercator e o mapa que dominou o mundo

Em 1569, o cartografo flamengo Gerardus Mercator publicou um mapa que resolvia um problema especifico e urgente da epoca: como tracar rotas nauticas em linha reta num mapa plano, mantendo um angulo constante de bussola.

Para isso, ele usou uma projecao cilindrica — imagine envolver um cilindro ao redor do globo terrestre e projetar nele os continentes. Quando o cilindro e desenrolado, o resultado e um mapa plano. O problema: quanto mais longe do Equador, mais a escala se expande. As regiões proximas aos polos ficam enormes. As proximas ao Equador ficam relativamente comprimidas.

O mapa de Mercator era extraordinario para a navegacao do seculo XVI. Ele permitiu que navegadores europeus tracassem rotas com precisão em longas travessias oceanicas. Para isso foi criado — e nisso funcionou muito bem. O que não estava no plano de Mercator, nem no de ninguém no seculo XVI, era que esse mapa se tornaria o padrao visual de como a humanidade entende a distribuicao do mundo por mais de quatro seculos.

O que o Mercator faz com os tamanhos

As distorcoes da projecao Mercator são consideraveis quando o assunto e area. Alguns exemplos que deixam clara a dimensão do problema:

Groenlandia no Mercator Parece ter tamanho similar ao da Africa
Realidade: Africa x Groenlandia A Africa e 14 vezes maior — caberiam 14 Groenlandias dentro do continente africano
Africa x EuropaA Africa tem quase 3 vezes o tamanho da Europa — no Mercator, parecem proximas em tamanho
Area real da Africa30,37 milhões de km2 — cabem EUA + China + India + grande parte da Europa dentro do continente africano
Brasil x EUA no MercatorO Brasil parece menor — na realidade, o Brasil (8,51 mi km2) e ligeiramente maior do que os EUA continentais

Por que esse mapa virou o padrao?

O Mercator se popularizou porque funcionava para a navegacao, e a navegacao era o motor da expansão europeia do seculo XVI ao XIX. Com o tempo, o mapa virou padrao em escolas, enciclopedias e depois em aplicativos digitais. O Google Maps usou a projecao Mercator por anos — e ainda a utiliza em grande parte de suas visualizacoes, embora tenha adotado uma visualizacao esferica 3D no desktop em 2018.

A critica contemporanea aponta que a popularizacao do Mercator — independente da intencao original de seu criador — acabou produzindo um efeito cultural: um mundo onde as regiões mais ricas aparecem visualmente maiores do que são, e as regiões mais pobres aparecem menores do que são. Esse e o cerne do debate decolonial sobre cartografia.

ANALISE CARTOGRAFICA

Atribuir ao Mercator a intencao de promover o colonialismo e uma simplificacao historica que não resiste a analise. Mercator foi preso e julgado por heresia em seu tempo — não era um aliado do poder. O problema não e a intencao do cartografo, mas o uso politico e cultural que se fez de um instrumento técnico ao longo de seculos. Nenhuma projecao e neutra quando se torna o padrao universal de como o mundo e ensinado.

O norte sempre em cima — por que?

Outra convencao tao naturalizada que parece uma lei fisica: o norte fica no topo dos mapas. Mas isso tambem e uma escolha historica, não uma necessidade tecnica.

Mapas medievais europeus frequentemente colocavam o oriente (Leste) no topo — dai a palavra “orientar-se”. Mapas islamicos medievais, como os do geografo al-Idrisi no seculo XII, colocavam o sul no topo. Mapas da China imperial tambem variavam.

A convencao norte-no-topo se consolidou a partir da Europa por razoes praticas ligadas a navegacao com bussola. E desde entao esta tao enraizada que parece natural — virar um mapa de cabeca para baixo produz estranhamento, mesmo que geometricamente não mude nada.

O que e a cartografia decolonial

Cartografia decolonial não e uma escola nova, mas ganhou tracao academica e politica nas ultimas decadas. A ideia central e que as representacoes do espaco geografico carregam relacoes de poder — e que tornar visivel essa dimensão politica e o primeiro passo para questionar quais perspectivas foram normalizadas e quais foram apagadas.

A Uniao Africana formalizou essa critica em 2025, liderando a campanha Correct The Map junto as organizacoes Africa No Filter e Speak Up Africa. O objetivo declarado: pressionar governos e instituicoes a adotarem projecoes que representem os tamanhos reais dos continentes — especialmente a Equal Earth, criada em 2018.

Fontes: IBGE Agência de Noticias (4/mai/2026) · Lojá IBGE · Reuters/Africa No Filter (2025) · O Tempo (ago/2025) · JN Portugal (set/2025) · Curiosidades Cartograficas · Geocracia · Aventuras na Historia · Correio Braziliense (mai/2026)

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